Category: J.J. Seabra VIII

VIII – Conclusão

Por , 26 de Janeiro de 2017 7:14 pm

VIII – Conclusão

 

Por mais que se estude e se pesquise sobre uma pessoa, jamais conseguiremos retratá-la fielmente. “Um retrato, por mais perfeito que seja, tem o valor de um testemunho grosseiro”, como afirma Henri Béraud, biógrafo de Robespierre[1].

Essa tarefa se torna bastante difícil e incompleta quando pesquisamos sobre JOSÉ JOAQUIM SEABRA JÚNIOR. Sua vida e sua obra não cabem numa simples monografia. A vida do velho tribuno baiano é tema para um belo e longo livro (com vários tomos), onde poderíamos nos alongar sobre nuanças de sua atribulada carreira política.

Seabra afirmava ser, politicamente, um liberal. E o era. Mas era um liberal ao seu tempo, à sua época, e não um “liberal” dos dias atuais. Influenciado fortemente pelas ideias do positivismo, que predominava nos meios intelectuais do Brasil nas últimas décadas do Império e nas primeiras da recente República, Seabra acabaria por formar uma consciência política que hoje chamamos de “positivismo esclarecido”[2]. Não era radicalmente um positivista, ao contrário, chegou a combater os que adotavam aquele ideal. Contudo, absorveu uma parcela dessa filosofia política e, misturando-a com o liberalismo econômico, “criou” sua própria maneira de fazer política.

Em Seabra encontraremos aquele conceito de bem público relacionado com a imposição, por parte do governante esclarecido, de um governo moralizante que, fortalecendo o Estado, procurava atender ao bem-estar dos cidadãos. O poder público, para Seabra, fundamentava-se na completa reorganização política e administrativa do Estado, na sua prosperidade material e, principalmente, na progressiva educação cívica moralizadora do povo, que contribui a fortalecer o Estado.

Seria essa sua moralidade com a coisa pública, inclusive, o traço marcante de sua personalidade, em contraste com o seu forte personalismo autocrático. Seabra jamais procurou a pompa externa, vivendo modestamente, sem luxo ou ostentação, chegando a passar por privações de ordem material, e procurou dar à administração pública esse caráter de austeridade e de respeito ao Tesouro Público.

Encontraremos essas preocupações em Seabra desde a realização inovadora dos meetings, onde procurava “conscientizar o povo” em suas palestras públicas. E mais concretamente o encontraremos neste papel que adotou quando comandou a vida política do Estado da Bahia, oportunidade em que procurou reorganizar as funções do Estado, dando-lhes um caráter moralizador.

Para Seabra, como para a filosofia positivista em geral, era válido o princípio de que a sociedade caminha inexoravelmente para a sua estruturação racional. Atinge-se esse ponto através do cultivo das ciências sociais, privilégio de personalidades carismáticas, como ele, que devem se impor nos meios sociais onde se encontram. Quando essa personalidade “esclarecida” – e assim agia Seabra -, assume o governo, deve procurar transformar o caráter dessa sociedade. A ação política de Seabra se baseou toda nesse contexto ideológico-filosófico; não consultava a opinião do povo, chegou a suprimir a forma direta de consulta popular para escolha dos Intendentes Municipais, e nem sequer indagava as condições de receptividade do meio para sua ação, porque se achava dotado por uma dádiva poderosa – visão científica da sociedade – que o impelia a cumprir a missão que lhe correspondia – conduzir o seu povo pelo “melhor” caminho…

E Seabra soube, muito bem, aproveitar o concurso de fatores determinantes e, de acordo com eles, influenciar as “multidões”, sendo seguido pela inconsciência e a instintividade de reflexos dos quais ele era o centro que atuava, sob a inspiração de “poderes superiores”. Essa idolatria a Seabra foi a raiz da política personalista que impôs à Bahia durante cerca de 12 (doze) anos. Essa inconsciência popular temos no exemplo do pai do jornalista Joel Presídio que afirmava que “não abençoarei o filho que ficar contra o Dr. Seabra”[3] . Como ele muitos assim procediam.

Em suma, esse era o seu pensamento e modo de agir, como político e administrador. Encontraremos a concretização desses pensamentos, mistura de positivismo e liberalismo, quando Seabra se colocou à frente do Governo baiano. Liberalmente não procurava esmagar os adversários, mas, sim, trazê-los para sua órbita de influência, tendo, inclusive, conseguido esse intento por um período de cerca de cinco anos, quando governou sem encontrar oposição. E mesmo depois de sua derrota política em 1924, sua influência persistiu “graças à (sua) personalidade e à (sua) maleabilidade política… que até nos erros era inconfundível”[4].

Foi graças a essa sua “maleabilidade” e erros “inconfundíveis” que Seabra soube se impor perante a Bahia. Não sendo herdeiro de nenhuma força política, nem membro de uma oligarquia familiar, sabia que só dependia de si para conquistar o poder. E soube aproveitar as oportunidades surgidas. Sua ascensão política surgiria na oportunidade em que ocupou a Pasta do Ministério da Justiça e Negócios Interiores no governo de Rodrigues Alves quando, inclusive, tentou viabilizar o seu Partido Republicano Dissidente da Bahia, que, no entanto, teve vida efêmera. Voltaria a ter outra grande oportunidade no governo do Marechal Hermes da Fonseca, quando assumiu o Ministério da Viação. Neste período, implantou o seu partido na Bahia para lhe servir de instrumento de aglutinação das forças políticas baianas e poder ascender ao Governo estadual.

“Seabra, contrariando o objetivo primeiro das ‘salvações nacionais’, estabeleceu na Bahia o mais longo domínio oligárquico de sua história. Enaltecido e venerado por seus seguidores e lançado pelos inimigos às chamas do bombardeiro de Salvador, enfrentou as forças coligadas dos três ex-governadores – Araújo Pinho, Severino Vieira e José Marcelino – liderados pelo grande e temível condutor de política nacional, o General Pinheiro Machado, a todos se sobrepondo. Sobrepôs-se, também, à ‘entente’ firmada entre os doutores da Capital e os coronéis do Interior, que se deixavam estimular pela liderança de Rui Barbosa, exercida à distância, de maneira discreta”[5].

Impôs-se sobre todos os líderes políticos adversários e atraiu para as hostes do Partido Democrata quase todos os adversários seguidores daqueles. “Raros foram os políticos da Primeira República, na Bahia, que não rezaram o credo seabrista – ainda que para isso tenha contribuído o longo período de influência de Seabra. Grande parte daqueles que comandaram a vida do Estado a partir de Góes Calmon era constituído de ex-seabristas. Alguns já haviam abjurado o credo seabrista desde 1919, outros renegaram-no mais tarde quando, entre a fidelidade ao chefe apeado do governo e a permanência no poder, preferiram a última opção”[6] e os “que não foram seabristas, não (foram) porque renegassem o velho político, e sim por não terem a oportunidade para isto, senão teriam sido seabristas também”[7].

Seabra conviveria com todas as gerações de políticos da Velha República. Iniciou na política, ao fim do Império, quando uma geração de influentes políticos desaparecia, como em 1895, os Conselheiros José Antonio Saraiva e José Luís de Almeida Couto, e em 1903, Joaquim Manuel Rodrigues Lima e Manoel Vitorino. Atravessaria uma geração de políticos de lideranças já consagradas e que morreram ao longo do período de sua ascensão política e consolidação do seu predomínio na Bahia, o que, aliás, foi um dos fatores determinantes desse predomínio, como em 1906, Cézar Zama e Arthur Rios, em 1913, Sátiro Dias e Virgílio Damásio, em 1917, Araújo Pinho, Severino Vieira e José Marcelino, em 1920, Luís Viana, e, em 1923, Rui Barbosa.

Seria, ainda, revelador ou líder de uma geração de políticos que, ou o acompanhariam pelo resto da vida, ou, mais tarde, seriam seus adversários, ou, ainda, rompidos, mas aliados em batalhas políticas da década de 30, como Octávio Mangabeira, Antonio Moniz, Moniz Sodré, Simões Filho e os irmãos Antonio, Francisco e Miguel Calmon. Por fim, terminaria sua vida quando uma geração estava surgindo para a política, a exemplo de Nelson Carneiro, Joel Presídio, Aloysio de Carvalho Filho, Wanderley Pinho, Régis Pacheco, Luís Viana Filho, Pedro Calmon, Antonio Balbino Filho, Nestor Duarte, Plínio Moscozo Filho, etc.

O seabrismo subsistiria ao próprio Seabra na lembrança sempre venerada dos seus antigos seguidores como, por exemplo, do Major Cosme de Farias, Joel Presídio, Aloysio de Carvalho Filho e o Senador pelo Estado do Rio de Janeiro, Nelson de Souza Carneiro. Este último, inclusive, ainda nos fins dos anos de 1980, tinha em Seabra o maior exemplo de homem público, reservando-lhe na lembrança uma admiração contagiante e admirável, considerando o interstício da morte do velho Líder.

Não podemos condenar Seabra pelos erros que cometeu ou por suas contradições ao longo da sua carreira política. Devemos analisá-lo na época e no meio em que viveu. E nela ele foi coerente. Podemos condená-lo por ter sido escravocrata quando era permitida a escravidão? Por ter sido monarquista num regime imperial? Poderíamos exigir-lhe ter sido diferente, nos pensamentos e ação política, dos demais políticos da República Velha? Evidente que a todas as perguntas respondemos que não. Seabra foi, assim devemos julgá-lo, coerente com sua época. Como afirmou Assis Cintra, ao se referir aos políticos daquele primeiro período republicano: “nenhum político brasileiro pode atirar contra o outro a sua pedra”[8]. Todos eram iguais, sem exceções.

Intrigante é saber como que um simples filho de um funcionário da Alfândega de Salvador se tornou Lente da Faculdade de Direito de Recife, e iria, mais tarde, ser o todo-poderoso líder baiano – o maior dos representantes da elite política. Respondemos: dada a sua combatividade e tirocínio político.

“Combatividade era o primeiro dos seus atributos. Maior do que a honestidade, tão decantada, porque esta, afinal, seria o seu dever de homem público, enquanto a combatividade não tem quem quer, mas quem a pode ter. E Seabra pode”[9].

“Capaz de ações e transações de discutível ética nos processos políticos, era pessoalmente homem de probidade imaculada”[10].

Octávio Mangabeira também ressaltava: “que homem bravo ele era! Nunca vi, nem no próprio Rui Barbosa, maior intensidade de fogo íntimo para lutas da vida política”[11].

Nestor Duarte, por sua vez, declarara:

“Seabra é um homem de aventura, fazendo da ação um fim em si mesmo, e de todas as causas ou ideais, episódios e pretextos de uma vida vertiginosa.

Dessem-lhe uma arma ou uma causa, dessem-lhe uma tribuna ou um partido, dessem-lhe uma praça pública ou uma campanha, e ele faria da causa ou da tribuna, do partido ou da campanha, o espetáculo de sua própria energia, o ensejo de sua própria aventura – uma carreira de altos e baixos, irregular, como a vida mesmo, mas sempre fiel à ação, como o pássaro ao voo e a seus ímpetos”[12].

O tirocínio político tinha em saber agir na hora correta, em tirar a vantagem política (no bom sentido) dos fatos políticos de repercussão, em saber criar o fato político e dele extrair a vitória. Assim foi quando se tornou Ministro de Rodrigues Alves e, principalmente, quando Ministro do governo do Marechal Hermes da Fonseca soube ser bastante habilidoso e ardiloso para se impor como governador eleito.

“Seabra não se impõe, porém, unicamente por vigor do seu excepcional talento, pelas suas qualidades de estadista, pela sua inquebrantável honestidade, mas também pela bondade do coração e lhaneza no trato. É um cavalheiro, completo. Correto nas maneiras e no trajar”[13].

“Orador magnífico, intrépido e veemente, sua palavra era sempre acolhida com simpatia. Temperamento irônico, dispondo de uma presença de espírito excelente, de verve deliciosa, conhecendo os problemas administrativos, de perto, e os problemas de nossa formação política, J. J. Seabra era uma inteligência lúcida, aberta a todos os ideais de liberdade e fortalecida pelos entusiasmos, que patriotismo compreensivo estimulara sempre. Sua vida não se fixou em conquistas de nenhuma sinecura tranquila. Foi antes de lutas generosas e despreendimentos incontestáveis. Por isso mesmo, J. J. Seabra viveu pobre e modestamente, morrendo pobre.

“… A vida desse homem-dínamo, que só se sentia à vontade na luta, teve momentos de grandes transfigurações. Sua vida foi longa. Em oitenta anos de lutas, J. J. Seabra acentuou aspectos duma personalidade extraordinária, intervindo na vida nacional em vários ensejos e sempre com destaque”[14].

Nele encontraremos a paixão pela Política. “Essa paixão em que se troca a comodidade pela competição, o êxito pela luta, as conquistas pelos riscos, a sua paixão na vida era a política, a carreira do político profissional para ganhar o poder”[15]. Deixou de lado a carreira de professor para concorrer à Assembleia Geral do Império em 1889. Derrotado, não desistiria e, no ano seguinte, voltava a ser candidato, para a primeira Constituinte republicana, só que agora vitorioso. Essa vitória lhe abriu as portas para a carreira política. Em duas oportunidades poderia ter aceito outros cargos públicos, não-eletivos, que lhe daria a tranquilidade financeira. Não os aceitou; sua vida era a política.

Sempre ousou, sempre foi inquieto. “Seabra é o homem de aventura, fazendo da ação um fim em si mesmo e de todas as causas ou ideias, episódios e pretexto de uma vida vertiginosa”[16].

“Seu temperamento inquieto e audacioso daria o impulso das paixões irresistíveis… na tribuna, era impetuoso ou sereno, enérgico ou moderado, conforme as circunstâncias o aconselhassem… era o trovão ameaçador; mas, por igual, o raio que fulmina… Facilitava-Ihe o arrojo ou a mansidão o imenso poder oratório… e a memória invulgar… A paixão da vida pública, ele vivia com a obstinação de quem 1não exerce uma profissão, cumpre um mandato”[17].

“Amou os regimes que valorizam a personalidade humana, as liberdades públicas, numa palavra: todos os pressupostos da verdadeira democracia, exercendo-se dentro da lei, sob a serena e digna vigilância de urna justiça incorruptível”[18].

Ele era assim, governava dentro da lei, não descambando para o arbítrio e as perseguições aos adversários.

“Era o grande e intrépido general que o momento de refrega enfrentava todos os perigos, não recuando jamais, por mais intensa que fosse a fuzilaria: quando o combate cessava, esquecia logo os golpes recebidos. Perdoava com a maior facilidade aos seus mais atrozes agressores; perdoava até os reincidentes nas ofensas cruéis à sua esposa”[19].

“Depois do combate, cessada a luta, não me resta senão a lembrança do valor, do brilho, da lealdade e do patriotismo daqueles com quem me enfrentei e com quem lutei” – afirmava Seabra[20].

“Quando derrotado, o Sr. Seabra não se abate. No dia imediato à derrota se o encontra calmo e sereno, como se nada houvera acontecido. Na sua fisionomia não se observa um traço de desânimo, nem de contrariedade. Risonho acalenta e encoraja os amigos sinceros que não tem a mesma presença de espírito”[21].

Seabra “não alimentava odiosidades, nem malquerências. Nunca hostilizou os seus adversários, nem admitia que se falasse mal na ausência”[22]. Para Cosme de Farias, ele “não alimentava rancores. Reconhecia o valor de seus adversários… Não guardava ódio dos seus inimigos políticos”[23].

E dessa forma ele agiu por diversas vezes. Foi assim na reconciliação com Simões Filho, na reconciliação com Octávio Mangabeira, nas lutas e alianças com Rui Barbosa, com Arthur Bernardes, que o fez sofrer e com o qual, já no final da vida, considerava seu amigo e de quem nada podia falar contra[24].

“- Na luta, não nego, sou feroz. Depois acaba. O que passou, passou. Na minha vida política tive inimigos terríveis que mais tarde se tornaram meus amigos. Briguei com Glicério, com Rui, com Alcindo Guanabara, com Pinheiro Machado, com Arthur Bernardes. Todos viraram meus amigos. Não tinha palavras contra nenhum deles”[25].

“- (Quando Rui morreu) éramos inimigos políticos, nesse tempo (entretanto) amigos pessoais…”[26].

Esse Seabra, combativo e audacioso, no esplendor da idade, seria o mesmo que, com mais de 75 anos, realizaria contra Juracy Magalhães a mais árdua, a mais vigorosa, a mais intrépida de todas as campanhas de sua vida pública. A velhice não era obstáculo para sua grande paixão. Era de uma tenacidade e coragem invejáveis. “O tempo o castigava, obrigando-o a curvar-se ao andar, posição que em hipótese alguma toma[va] diante da adversidade, por mais rude e áspera que fosse”[27].

“Figura notabilíssima, sem dúvida, a de José Joaquim Seabra: inteligente, brilhante, orador de raça, retemperara-se nas fileiras de oposicionismo áspero, não poupando o adversário em combatividade desassombrada e agressiva. Rival de Rui, levou a vida em quase duelo permanente contra o perigoso antagonista e, sem a cultura do adversário, sabia, entretanto, sair-se da luta galhardamente, jogando com os recursos da inteligência e dos cabedais de astúcia com que enfrentava os prélios mais arriscados”[28].

“Nunca vi mocidade de espírito que mais resistisse aos anos e aos desenganos da vida pública. Homem-legião, acabou quase varão solitário, mas aferrado às suas ideais libertárias. Atrevido nas réplicas, dotado de uma eloquência natural, infatigável, valente, aumentava-lhe a influência a sua incorruptibilidade” [29].

Destas suas características, fez-se popular. “Desfrutou, incondicionalmente, da popularidade, uma popularidade espontânea, ampla, por vezes adormecida, desaparecida jamais, e que, sendo um orgulho seu, foi a mais bela moldura de sua vida e de sua ação”[30].

“O que de fato o empolgava era o povo, era a luta, era a tribuna, contanto que, em torno desta, marulhando, a massa popular. Só então se lhe notava a transparecer-lhe no rosto a animação, a alegria, a eletricidade, o entusiasmo. Só aí nas praças públicas, bem mais que nos palácios, na agitação, bem mais que na calmaria, no oceano, bem mais que no pântano – estava no seu elemento”[31].

Essa popularidade remonta dos seus primeiros meetings, de sua simplicidade de vida e de suas realizações como administrador público. E Seabra, aliás, foi um daqueles políticos sempre lembrado pelo povo. Para tanto basta mencionar que, como havia a possibilidade de se votar mesmo em que não era inscrito, durante as eleições da Primeira República, ele foi destinatário de votos para presidente ou vice-presidente, mesmo sem se candidatar oficialmente, da eleição presidencial de 1894 (com três votos para vice-presidente) à eleição de 1930 (com um voto para presidente e três para vice-presidente)[32].

“Seabra impõe-se por si mesmo”. De “temperamento combativo…, para quem não existe dissimulação… Nenhum brasileiro há provocado maiores controvérsias ou enfrentado adversários mais encarniçados. Mas até hoje nem uma voz sequer se fez ouvir para atirar-lhe a injúria com que tão frequentemente, com tanta crueldade e injustiça, se vergasta a face dos nossos homens públicos: a improbidade… A pobreza honrada do Dr. Seabra tem sido respeitada até pelos seus mais odientos desafetos”[33].

O carisma de Seabra foi destacado por Cid Teixeira, para quem, “igual a ele talvez pudesse mencionar na política brasileira da época o caso de Pinheiro Machado”[34]. “E ninguém sabe quem foi mais fiel – se ele ao povo, ou o povo a ele”[35].

É certo que sofria diversas críticas:

“Uma invencível ambição de mando absoluto… É espalhafatoso e loquaz. Se se tivesse dedicado à arte cenográfica daria um excelente fabricante de apoteoses nos melhores teatros de revistas e burletas. Não o tendo feito vai fabricando as maiores pochades políticas. E tem toda a encenação do despotismo. Quando fala em público é esmurrando a tribuna, tem gestos furiosos e a sua face, onde o bigode pintado parece zurzir filisteus, fica apoplética como a querer explodir em raios. Para se apossar do governo da Bahia valeu-se do bombardeio. Era capaz de valer-se de um terremoto para alcançar a presidência da república”[36].

Contudo, seria “injustiça negarmos ao povo a inteligência para separar, entre seus amigos, os verdadeiros, dos falsos”[37]. Daí a nudez e a certeza de Seabra quanto ao julgamento que o povo lhe fazia em relação aos acontecimentos do bombardeio de Salvador.

“- Esperei sempre a justiça e vivi bastante para tê-la. Era impossível que o povo baiano me julgasse capaz de haver mandado bombardear a Bahia. E o julgamento aí está”[38].

No íntimo, sofria com os ataques que o apontavam como o responsável pelo bombardeio, e pode ter sido realmente o seu responsável maior, contudo a quem cabia julgá-lo, julgou-o. E o povo perdoou e o elegeu por diversas vezes após aquele triste episódio, bem como deu demonstrações de seu perdão, como quando do seu retorno do exílio em 1926 e quando do seu sepultamento em 1942, oportunidade em que dezenas de milhares de pessoas acompanharam seu corpo até baixar à sepultura.

Esse era o Seabra. “Sejam quais forem os seus erros, em uma longa e acidentada carreira, deles Seabra se redimiu inteiramente, coroando o seu tirocínio de homem de Estado, em uma idade naturalmente predisposta à comodidade e ao egoísmo, com a bravura autonomista, e assim vingou a Bahia do odioso ultraje que tanto a humilhou”[39]. E, ao certo, seus acertos foram tantos que tornam os erros desprezíveis.

Sem dúvida,

“Uma grande vida…”

 

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[1] Citado por Josaphat Marinho, Seabra, Grandeza de Espírito, visão de estadista, p. 2.

[2] Pensamento Político Brasileiro, A Tarde, de 16/07/83.

[3] Consuelo Novais Sampaio, Os Partidos Políticos da Bahia na Primeira República. Uma política de acomodação, p. 188.

[4] Consuelo Novais Sampaio, Os Partidos Políticos da Bahia na Primeira República. Uma política de acomodação, p. 186.

[5] Consuelo Novais Sampaio, Os Partidos Políticos da Bahia na Primeira República. Uma política de acomodação, p. 188.

[6] Consuelo Novais Sampaio, Os Partidos Políticos da Bahia na Primeira República. Uma política de acomodação, p. 188.

[7] Nestor Duarte, discurso proferido na Assembleia Legislativa do Estado da Bahia em 30/07/1936.

[8] Citado in Leôncio Basbaum, História Sincera da República, vol. 1, p.193.

[9] Aloysio Carvalho Filho, RIGHBA, vol. 71/1944.

[10] Afonso Arinos de Melo Franco, Rodrigues Alves, v. 2, p. 233.

[11] Discurso na Câmara dos Deputados em 22/08/1955, in Paulo Segundo da Costa, Octávio Mangabeira, democrata irredutível, p. 263.

[12] Nestor Duarte, oração fúnebre no enterro de Seabra, in Waldir Freitas Oliveira, Nestor Duarte, inquietação e rebeldia, p. 226.

[13] Antonio Moniz, A Bahia e seus Governadores na República, p. 490.

[14] Folha da Manhã, 06/12/1942, p. 5.

[15] Nestor Duarte, Jornal do Comércio, de 23/08/1955.

[16] Nestor Duarte, A Tarde, 12/12/942.

[17] Josaphat Marinho, Seabra, discurso proferido na Assembleia Legislativa da Bahia em 19/08/1955.

[18] Nelson Sampaio, A Tarde, de 12/12/1942.

[19] Francisco Borges de Barros, citado por Lima Teixeira, Jornal do Comércio, de 22/08/1955.

[20] Alexandre Melo Moraes Filho, Um Estadista da República: Dr. JJ. Seabra, p. 86.

[21] Antonio Moniz, A Bahia e seus Governadores na República, p. 492.

[22] Cel. Henrique Farias, ex-chefe da Casa Militar de Seabra, Diário da Bahia, 15/12/1942, p. 3.

[23] Diário da Bahia, 15/12/1942, p. 7.

[24] Seabra, Revista Diretrizes, n. 94, p. 4.

[25] Seabra, Revista Diretrizes, n. 94, p. 4.

[26] Seabra, Revista Diretrizes, n. 94, p. 4.

[27] M. Paulo Filho, Correio da Manhã, 12/12/1942.

[28] José Antonio da Costa Porto, Pinheiro Machado e seu tempo, p. 153.

[29] João Neves da Fontoura, Memórias, vol. II, p. 221.

[30] M. Paulo Filho, Correio da Manhã, 12/12/1942.

[31] M. Paulo Filho, Correio da Manhã, 12/12/1942.

[32] Aloildo Gomes Pires, Eleições presidenciais na Primeira República, passim.

[33] Discurso de Octávio Tavares perante a Faculdade de Direito de Recife em 04/09/1921, in Francisco Borges de Barros, Da Amazônia ao Paraná. Diário de uma campanha cívica, p. 148.

[34] As Oligarquias na Política baiana, p. 43.

[35] Nestor Duarte, oração fúnebre no enterro de Seabra, in Waldir Freitas Oliveira, Nestor Duarte, inquietação e rebeldia, p. 227.

[36] Diário de Notícias, 21/01/1913, p. 03

[37] Jaime Junqueira Aires, Seabra, Líder Autonomista, A Tarde, 03/09/1955.

[38] Seabra, Revista Diretrizes, n. 94, p. 4.

[39] Simões Filho, A Tarde, 20/08/1955.

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