VII – Epílogo de vida (1937-1942)

Por , 26 de Janeiro de 2017 7:12 pm

VII – Epílogo de vida

(1937-1942)

 

Implantado o Estado Novo, encerraram-se as atividades políticas-democráticas e com elas a carreira política de Seabra. Ante a força arbitrária de Getúlio Vargas, só lhe restava o protesto moral contra o novo regime imposto aos brasileiros[1].

Seabra continuaria a residir no Rio de Janeiro mesmo após o fechamento do Congresso Nacional. Passava a maior parte do tempo lendo jornais, revistas e novos livros, de preferência franceses, e recebendo e fazendo visitas a amigos e antigos correligionários. Raramente ia à Bahia, só no fim do ano. “Ele não podia ir à Bahia porque não tinha dinheiro. Ele recebia, àquele tempo, 2.400 contos como professor jubilado da Faculdade de Direito de Recife”[2] .

O velho político baiano, viúvo desde agosto de 1940, vivia sozinho num quarto de hotel, na Rua 2 de Dezembro, na Capital Federal. Tinha como companheiro de hospedaria e nas horas do almoço, Joel Presídio, José Rabelo e Nelson Carneiro[3]. Depois, ele se mudou para um outro quarto nas Laranjeiras, no América Hotel, porque o que ele residia anteriormente fora vendido e ia ser demolido. De luxo apenas um telefone. Não tem uma vitrola, nem um rádio[4]. Com ele morava, em outro quarto do hotel, seu neto, a respectiva esposa e um bisneto[5].

“Residia num quarto modesto de um hotel de segunda classe. Nos dias mais frios do inverno carioca, era comovedor ver-se Seabra, envergando seus pijamas de flanela, a que o decorrer dos anos obrigara colocar remendos e coseduras. É que ele, segundo exclamara, alto e bom som, ao deixar o governo da Bahia em 1924, saíra com as mãos vazias, tendo governado uma terra cheia”[6].

“Vivia aqui [no Rio de Janeiro] num modestíssimo hotel… Não tinha haveres nem credores, nem dinheiro nem dívidas, o que lhe conferia numa extraordinária autoridade”[7].

O jornalista Joel Presídio narra que, depois de Seabra ter se mudado, foi visitá-lo no novo hotel, perguntando-lhe se estava satisfeito com a mudança. Seabra lhe respondeu que não, porque suas despesas haviam aumentado. “Indaguei-lhe por que não vinha residir na Bahia” – relembra Presídio, “onde teria os carinhos fraternais de D. Bela (sua irmã), a assistência de parentes, o convívio de amigos e a alma alentada pela visão panorâmica da querida terra natal”.

“- Não posso.” – respondeu Seabra -, “minha única renda são os vencimentos de professor aposentado da Faculdade do Recife. São apenas três mil contos mensais, com os quais posso viver modestamente no Rio. Na Bahia, sou obrigado à vida social: é um casamento, um aniversário, um enterro, um·batizado, um donativo, umas tantas despesas que não posso fazer, porque meus vencimentos não bastam. Eis porque estou condenado a viver longe da Bahia” – completou[8].

E parte de seus proventos, ainda, mandava para sua irmã em Salvador[9].

Triste verdade daquele ancião que fora duas vezes governador da Bahia, duas vezes ministro, diversas vezes deputado federal, senador etc. “Fui duas vezes governador de um Estado cheio e tenho as mãos vazias” – costumava repetir.

E esse seria o cotidiano de sua vida após a decretação do Estado Novo. Ia à Bahia de vez em quando. Juntava dinheiro ano inteiro para poder passar o Natal com os amigos e familiares na Bahia[10]. Sua “pobreza”, aliás, já era famosa no Rio de Janeiro. Isso porque, quando ainda exercia mandato, nas férias parlamentares, à época, os congressistas não recebiam jetons. Seabra, então, quando permanecia na Capital Federal passava dificuldade em se manter. Sempre era socorrido pelos amigos, a exemplo de Ferreira Botelho, diretor-proprietário do Jornal do Comércio. O empréstimo sempre era reembolsado por Seabra quando reiniciava os trabalhos parlamentares[11].

No ano de 1938, numa dessas viagens à Bahia, teria a oportunidade de se despedir de Octávio Mangabeira que embarcava para o exílio na Europa. Mangabeira é quem relembra esse momento:

[era] “29 de outubro de 1938, ele, coitado, … apesar da hora imprópria, dez da noite, fez questão de vir ao cais, [que tinha] poucas pessoas … porque a polícia tomara providências para evitar que até os meus amigos ali comparecessem, abraçando-me comovido, disse-me, em palavras tão baianas e pondo na voz o vigoroso acento com que falava em tais ocasiões: Deus o acompanhe. Eu lhe respondi: Deus o conserve”[12] .

Seabra, com este gesto, protestava contra a opressão da ditadura do Estado Novo.

Apesar de discordar da política autoritária de Getúlio, eles mantinham, desde a Revolução de 30, um bom relacionamento pessoal. Após a Revolução Paulista de 1932, inclusive, Getúlio chegara a cogitar a nomeação de Seabra para o Tribunal de Contas da União, como Ministro. Getúlio já conhecia as condições financeiras de Seabra e procurava lhe minorar a pobreza. Seabra mandou lhe responder que era aposentado por invalidez absoluta e que, assim, não podia deixar de ser inválido para retornar à ativa. Getúlio, então, mandou-lhe dizer que ele poderia requerer nova aposentadoria e ficar com as duas. “Esse gaúcho quer é me desmoralizar” – disse Seabra a amigos que tentavam convencê-lo das boas intenções de Getúlio[13].

O que Vargas queria realmente era afastar Seabra da política para que Juracy pudesse governar com sossego. Contudo, assim como acontecera com a oferta de Rodrigues Alves para que ele aceitasse ser Ministro do Supremo Tribunal Federal, Seabra recusou, preferindo continuar a fazer política – seu grande vício.

Durante o Estado Novo, os dois voltariam a se encontrar. Nelson Carneiro relembra que um político baiano pretendia ser nomeado Interventor Federal na Bahia e, achando que Seabra iria lhe dar o apoio nesse seu desejo, articulou um encontro entre Getúlio e Seabra, sem que nenhum dos dois tivesse tido a iniciativa para tal, pressupondo que, do encontro, surgiria uma troca de ideias sobre a interventoria na Bahia e que, assim, Seabra iria apoiar o nome daquele político desconhecido. Só que, do encontro, eles só conversaram amenidades e relembraram fatos do passado, não tocando no assunto da interventoria baiana. E o tal político não foi nomeado[14] .

Em 1939, Seabra se despediria da velha Faculdade de Direito do Recife. acompanhado de seu filho Carlos Seabra e do amigo Miguel Vaz, o velho professor seguiu para a Capital pernambucana onde seria recebido calorosamente pela mocidade acadêmica. Lá fez duas conferências: uma na Faculdade de Direito, quando seria presenteado com uma beca e se despediria dos estudantes; e a outra, no Teatro Santa Isabel, despedindo-se do povo pernambucano. Em ambas, evocara fatos do passado, principalmente de sua passagem por Recife, quando estudante; seu concurso para Lente, o jubilamento com Floriano; lembrou da nomeação de José Mariano para o cargo de Tabelião no Rio de Janeiro, revelando ter sido este deputado pernambucano que lhe revelou os detalhes da trama para depor Rodrigues Alves, etc[15].

Deslocando-se por Recife, ao passar pela Ponte Maurício de Nassau, declararia:

“Quanta beleza! É isto que faz o Recife tão bonito. Foi aqui que aprendi a ser liberal, porque a história de Pernambuco é a história da liberdade do Brasil”[16].

Em Recife, Seabra se reencontraria com Agamenon Magalhães, seu velho amigo, que exercia o cargo de Interventor Federal no Estado de Pernambuco. Agamenon se uniria às homenagens que estavam sendo prestadas a Seabra. “Dos homens do Estado Novo, o único que seria capaz de apoiar, para Presidência da República, é o Agamenon” – confessaria Seabra[17].

Seabra se recordaria, ainda, que “o Interventor foi muito gentil. Entregou-me o Estado com estas palavras: Demita, nomeie, prenda, solte, faça o que você quiser. Todos cumprirão suas ordens”[18].

Em 24 de novembro daquele ano, Seabra iria à Bahia para realizar, na Associação dos Empregados no Comércio, uma conferência “Memórias Faladas” era o título[19]. “Com 84 anos, realizando, num estilo ainda colorido, por vezes vibrante, e sempre animado, a história falada dos mais importantes acontecimentos que testemunhara ou de que participara, em mais de meio século de atividade política. Não houve fadiga física, apesar do longo tempo – quase quatro horas, de permanência na tribuna”[20].

Em 1940, Seabra terminaria de juntar em banco cerca de 50 contos de réis, que vinha economizando desde que voltara do exílio em 1926, com a finalidade de resgatar a dívida para com Guilherme Guinle, que lhe tinha emprestado tal quantia para poder sobreviver no exílio. Em 1941, Seabra solicitou a Guinle que marcasse dia e hora para uma conferência. Guinle recusa, mas foi ao hotel onde Seabra vivia para conversar com ele. Nesse encontro, Seabra relembrou de sua dívida e colocou o dinheiro à disposição de Guinle. “Recusou-se terminantemente a reembolsar o dinheiro” – relembra Seabra, “dizendo que se regozijava por me ter obrigado a juntar esse dinheiro de volta”[21].

Em abril de 1942, Seabra concederia uma entrevista ao jornalista Francisco de Assis Barbosa, da Revista Diretrizes, dirigida pelo jornalista Samuel Wainer, que tinha em sua linha editorial o combate ao autoritarismo nazifascista da Europa.

Nessa entrevista, Seabra relembraria fatos de sua vida particular, citados ao longo desse trabalho, fatos políticos de que participara e clamaria pela liberdade: “ainda quero viver depois da guerra. Depois da derrota do miserável do Hitler e do infame Mussolini … o mundo não pode viver sem liberdade”[22]. Esta era a sua derradeira oração cívica aos brasileiros – “canto do cisne”[23].

Essa era a primeira entrevista de uma série realizada pela Revista Diretrizes com diversos políticos que ainda lutavam pela democratização do país, tendo alcançado imensa repercussão, considerando o momento político que o país vivia e o fato de que, até então, o Brasil ainda não tinha declarado guerra aos países do Eixo[24].

Em agosto de 1942, Seabra, ainda, falaria à Revista Diretrizes, logo após o Brasil declarar guerra à Alemanha: “Estou… solidário com o governo brasileiro na luta contra os bandidos do Eixo…. Agora mais do que nunca eu creio no Brasil democrático. Estou por ele. E se preciso, morrerei por ele. Aguardo confiante e serenamente o dia da vitória”[25]. Não viveu, porém, para tanto.

Em setembro de 1942, ainda assinaria uma mensagem coletiva encaminha ao Primeiro-Ministro Winston Churchill pelos três anos de combate ao nazismo[26].

Seabra vivia inquieto. Não se conformava com aquela situação imposta pelo Estado Novo. Estava disposto a lutar: “hei de achar quem conspire comigo: estou velho e não hei de morrer resignado a esta opressão – De que me serve mais a vida?” – perguntava a Jayme Junqueira Aires, “lego a vocês o meu exemplo. Quando eu morrer, você escreva o que eu digo. O Aloysio (de Carvalho Filho) e você. Não esmoreçam, não se entreguem… vou morrer na praça pública. É o meu cenário, o meu lugar de morrer”[27] .

Em sua solidão, chegou a planejar escrever um livro sobre Rodrigues Alves. Não teve tempo, porém, para realizar esse projeto[28].

Em outubro de 1942 concederia, ainda, aquela que seria a sua última entrevista. Ela foi concedida à Revista Seiva[29]. Nela, Seabra, mais uma vez, depositava sua esperança na mocidade brasileira que luta pela vitória contra o nazismo e pela democracia. “É preciso pregar a democracia, mas a democracia e não a camuflagia!”[30]. Em seus últimos dias de vida, Seabra ainda tinha voz para reclamar pela democracia, suprimida no Brasil com o golpe de Getúlio Vargas em 1937.

Mas aos 87 anos Seabra começou a urinar sangue. Era câncer na próstata ou bexiga[31]. O médico resolveu operar. Foi pior. Naquela idade a operação só lhe debilitou ainda mais a saúde. Enfermo, mas ainda hospedado no Hotel América[32], Seabra recebeu a visita de Joel Presídio que lhe fora levar a notícia da nomeação, em 23/11/1942, do General Renato Pinto Aleixo para a Interventoria Federal na Bahia. Seabra se contraria com a notícia. Presídio, então, tenta minorar o aborrecimento, lembrando que o general Aleixo não era baiano, mas vivia há mais de dois anos na Bahia e que estava introduzido na sociedade baiana.

Seabra lhe respondeu: “Tudo isso que você diz pode ser verdade. Mas o nomeado não é baiano. Se Deus permitir que eu escape desta, irei à Bahia desfraldar a bandeira autonomista. Se não encontrar quem me acompanhe, lutarei sozinho! Já estou acostumado a ficar só, com a bandeira na mão”[33]. Mesmo na doença não deixava de pensar o melhor para sua querida Bahia.

Muito doente, Seabra ainda escreveria para seu neto Alfredo Seabra manifestando a intenção de seguir para a Bahia entre 8 e 10 de dezembro daquele ano (1942), para ditar seu testamento político[34]. Sua saúde, no entanto, causava apreensão, sendo objeto de notícia nos jornais[35]. Era gravíssimo o seu estado, “temendo-se um desenlace iminente”[36].

Agravada sua situação, ele é atendido no próprio Hotel onde residia[37], chegando a receber, entretanto, uma transfusão de sangue[38]. No dia 26/11/1942, porém, teve que ser internado[39]. Após lutar quinze dias contra a doença[40], num sábado, dia 5 de dezembro de 1942, às 18:20 horas, no Hospital da Beneficência Portuguesa, onde estava internado, na cidade do Rio de Janeiro, falecia JOSÉ JOAQUIM SEABRA JÚNIOR[41]. Antes, solicitara a presença de um padre, tendo confessado e comungado[42]. Morria o mais tradicional e antigo político brasileiro, pois ninguém igual a ele, à época, tinha a história política que ele possuía desde a Proclamação da República.

O Presidente da República. considerando que Seabra, “prestou, nas várias funções que exerceu, assinalados serviços à Nação” decretou luto oficial por três dias, “como sinal de pesar pelo falecimento”[43]. A Bahia parou com a notícia. O interventor Renato Pinto Aleixo decretou luto de cinco dias na Bahia. Os clubes fecharam. Um profundo pesar recaiu sobre todas as classes sociais da Bahia[44]. O corpo, vestido com a beca da Faculdade de Recife[45], ficou exposto à visitação no Rio de Janeiro, na “Casa da Bahia” (então localizada na Av. Rio Branco, 114, 9º andar), entre o domingo (dia 06/12) e a quinta-feira (dia 10/12), recebendo inúmeras homenagens e demonstração de respeito[46].

No Rio de Janeiro, foi visitado por diversas autoridades. Entre elas Eduardo Espínola (então Presidente do STF), Ernani do Amaral Peixoto, Edmundo Bitttencourt e Marcondes Filho[47]. Seabra, ainda, seria homenageado na Academia Brasileira de Letras pelos confrades João Neves da Fontoura, Osvaldo Orrico, Clementino Fraga e Pedro Calmon[48].

Na cerimônia de despedida do Rio de Janeiro, falaram o Prefeito do Rio Henrique Dodsworth, Oscar Argolo e Brás do Amaral[49]. Os estudantes, através da Associação Nacional dos Estudantes (ANE) também prestaram homenagens. O cortejo, a pé, pela Avenida Rio Branco até o aeroporto, por sua vez, foi acompanhada pelo Corpo de Bombeiro, cuja banda tocava marchas fúnebres[50]. Já no Aeroporto, Seabra foi saudado por Maurício Lacerda[51]. A presença popular era imensa.

Transladado em um hidroavião Condor da Panair desde o Aeroporto Santos Dumont no Rio de Janeiro[52], chegando no Aeroporto dos Tainheiros, em Salvador, o corpo foi conduzido para velório na Faculdade de Medicina. Sua chegada foi apoteótica, com milhares de pessoas o esperando no Aeroporto de Itapagipe, todas querendo pegar o caixão[53]. De Itapagipe até a Faculdade de Medicina, num cortejo de cerca de oito quilômetros, o povo, de suas casas e na rua, parou para se despedir de Seabra. Flores eram jogadas das janelas[54].

Por volta das 18:30 hs. o corpo chegou na Faculdade de Medicina. “A polícia era impotente para conter a multidão que desejava entrar. Todos queriam levar o último adeus a J. J. Seabra”[55]. Quando o caixão foi aberto, a “fisionomia serena do morto arrancou lágrimas de quase todos os que ali se encontravam”[56].

Velado na Faculdade de Medicina, o corpo seguiu para o Cemitério do Campo Santo às 15 horas do dia 11 de dezembro de 1942. O Comércio fechou às portas às 14 horas em sua homenagem e os anúncios luminosos naquele dia não foram acessos como sinal de respeito e luto[57]. Cinemas e repartições públicas também não funcionaram[58]. Era “desolador o aspecto das ruas da capital baiana” desde a véspera[59].

Antonio Carlos Nogueira Britto nos relata:

“As ruas onde deveriam passar os despojos do Dr. J. J. Seabra estavam atopetadas de gente, pesarosas, que aguardavam a passagem do féretro para prestarem sentido tributo ao velho lutador democrata, que regressava à terra que o assistiu vir ao mundo, para descansar na eternidade depois de tantas batalhas em que se sobressaiu como uma das personalidades mais notáveis da República.

Às 17 horas, o hidroavião especial, em suave amaragem sobre a água do porto dos Tainheiros, acabava de transportar desde o aeroporto do Rio de Janeiro o corpo do ilustre extinto, que era acompanhado pela digna e enlutada família.

Após a retirada do esquife do hidroplano, foi o caixão de mogno com incrustações de bronze levado até o carro mortório, entre a melancolia silente e lutuosa multidão, rumando então para a Faculdade de Medicina da Bahia entre alas de povo que se espalhava, respeitoso, por todo o percurso, patenteando o imenso pesar de que estava possuído o sentimento baiano.

Uma das mais tocantes demonstrações de tristeza foi a prestada pelo Colégio dos Órfãos de S. Joaquim, cujos alunos postados em continência militar, executaram significativo toque fúnebre à passagem do carro mortuário.

Ao chegar o féretro, premido por compacta e chorosa multidão, ao prédio da imponente e vetusta Faculdade de Medicina da Bahia, os dobres dos sinos da Catedral e das igrejas vizinhas deram a conhecer a hora das Ave-Marias, como se instassem o povo quedado no largo do Terreiro de Jesus para uma prece em memória do grande homem público, inanimado, que descansará na terra que tanto estimou enternecidamente. Na oportunidade, a multidão mostrava-se excitada em virtude dos cordões de isolamento que a mantinha afastada do esquife e que procurava prestar o seu derradeiro tributo de veneração ao preclaro homem público baiano.

Foi procedida a trasladação dos sinais da vida do insigne J. J. Seabra para o salão nobre da Faculdade de Medicina da Bahia, onde estava armada imponente eça. Os atos iniciais da funérea cerimônia foi filmado. Levantada a tampa do esquife, milhares de pessoas iniciaram, ante o corpo do Dr. J. J. Seabra, romagem comovente que expressava o pesar da Bahia pela morte do ínclito filho.

Durante o decorrer da noite, pessoas de todas as classes sociais desfilavam ininterruptamente ante o esquive. A cada hora, delegações de instituições eram substituídas na vigília ao celebrado chefe político baiano.

Comissões de professores, funcionários e alunos do Ginásio da Bahia revezaram-se, desde as 18 horas da chegado do corpo do muito distinto baiano ao grandioso salão nobre da Faculdade de Medicina da Bahia. Permaneceram no dito salão nobre até a hora em que o esquife deveria deixar a câmara ardente, ali concentrando-se às 13 ½ horas, afim de tomarem parte, incorporados, nos funerais.

O interventor federal, coronel Renato Pinto Aleixo, acompanhado do chefe da Casa Civil, do secretariado do Estado e do prefeito da capital, Dr. Elísio Lisboa, visitou o corpo do Dr J. J. Seabra, velado no esplendoroso e lutuoso salão nobre da Faculdade de Medicina da Bahia.

Na câmara ardente armada no belíssimo salão nobre da Faculdade de Medicina da Bahia, às 9 horas da manhã, foi celebrada a missa de corpo presente. O ato litúrgico fúnebre foi oficiado pelo arcebispo primaz, D. Augusto Álvaro da Silva, acolitado pelo cônego Odilon Moreira, padre Eugênio Veiga, padre Moura Cavalcante e muitos seminaristas. Presente à missa pelo morto, o coronel Pinto Aleixo, interventor federal, o secretariado do Estado, e várias autoridades civis e militares, além de grande número de circunstantes, de todas as classes sociais que atopetavam literalmente o recinto do cerimonial funéreo no imponente salão nobre da Faculdade da Faculdade de Medicina da Bahia.

Finda a liturgia dos mortos, a multidão, que aguardava no exterior do palacete da Faculdade de Medicina da Bahia, teve autorização para a visitação ao corpo, ingressando no tradicional e histórico estabelecimento de ensino médico, estabelecendo-se o sistema de mão e contramão.

Grande número de capelas foi depositado no salão nobre, junto ao esquife

O Governo do Estado prorrogou o luto oficial que deveria terminar no dia 11 p. passado, até que se levasse a efeito a inumação do corpo de ilustre conterrâneo e fez sair à luz pelas gazetas o seguinte convite: “O Governo do Estado cumpre o dever de convidar o povo baiano a participar das últimas homenagens que, em nome da Bahia, prestará a seu grande filho Dr. José Joaquim Seabra, que se tornou um nome nacional, pelos inestimáveis serviços prestados á sua terra natal e ao Brasil, nos vários postos que ocupou. O traje para o acompanhamento dos funerais deverá ser preto ou escuro.”

O interventor federal em Sergipe, A. Maynard Gomes, enviou condolências por meio de telegrama afirmando ao Governo do Estado da Bahia profundo sentimento pelo desaparecimento de J. J. Seabra, tendo o interventor federal na Bahia agradecido as expressões de pesar do Governo de Sergipe.

Às 15 horas realizou-se, no salão nobre da Faculdade de Medicina da Bahia, a sessão solene, fúnebre, em homenagem à memória do Dr. José Joaquim Seabra. Falaram na ocasião Elisio Lisboa, pelo município da capital; o prof. Mario Leal, pela Faculdade de Medicina; o prof. Jaime Aires, pela Escola Politécnica; Nelson Sampaio, pelo Instituto dos Advogados; o prof. Magalhães Neto, pela Academia de Letras, e o coronel Renato Pinto Aleixo, pelo governo do Estado”[60].

Nesta cerimônia, ainda falou, como representante da Escola Politécnica, o professor Albano da Franca Rocha[61]. Após a missa de corpo presente e o término das homenagens prestadas na Faculdade de Medicina[62], o corpo seguiu para o cemitério, seguido por “incalculável multidão”, tudo acompanhado das Bandas de Música da Força Pública e do Corpo de Bombeiros e de batedores em motocicletas[63]. Logo no início, na Praça da Sé, do “alto de uma pirâmide de metais velhos”[64], o corpo foi saudado por Nestor Duarte. Quando o cortejo estava na altura da Escola Politécnica, na Praça de São Pedro, foi saudado pelo acadêmico Fernando Santana, declarando, em nome da UNE (União Nacional dos Estudantes), da qual era seu vice-presidente[65], que “estamos satisfeito contigo, José Joaquim Seabra, porque viveste muito e viveste bem, o que é viver muito mais” [66].

Salvador teria vivenciado a “maior reunião de pessoas que já se viu na Bahia”[67]. Teria sido mais de cinquenta mil pessoas acompanhando o enterro[68].

Já no Cemitério, Seabra foi saudado por Antonio Balbino de Carvalho, Octávio Barreto, Cosme de Farias e Gelásio de Abreu Farias[69], além de Alexandre Machado, pelo Instituto Histórico e o operário Eurico Santos[70]. Sepultado, o Interventor telegrafa ao Presidente Getúlio Vargas noticiando que “o enterramento constituiu uma verdadeira apoteose da Bahia a seu excelso filho”[71].

Ele seria enterrado às 19h do dia 11 de dezembro no Cemitério do Campo Santo, na sepultura n. 1.294, perto do mausoléu de Castro Alves, tendo sido acompanhado em cortejo fúnebre até àquele cemitério “pelo povo que o seguia em vida”[72].

Morreu pobre. Em mãos, apenas Cr$..1.652,00 (hum mil seiscentos e cinquenta e dois cruzeiros). Mil cruzeiros numa gaveta de papéis. O restante, na carteira do bolso[73]. Como disse o jornal O Paiz, já em 1909, e que se revelou um fato ao longo da sua carreira política, “Seabra não tem rabo de palha”[74].

Deixara, ainda, pouco mais de 75 mil cruzeiros antigos depositados no Bank of London & South America e pouco mais de 20 mil na Caixa Econômica. Do dinheiro depositado no Bank of London, 50 mil pertencia a Guilherme Guinle, dinheiro que Seabra jamais quis tocar. O dinheiro depositado na Caixa Econômica foi amealhado desde 9 de dezembro de 1902, quando Seabra abriu uma caderneta e foi, aos poucos, depositando dinheiro que lhe foi rendendo juros. Era só. Nenhum imóvel sequer, mais nada[75].

Em vida, em Salvador, chegou a residir em uma casa no Corredor da Vitória. Este imóvel, porém, foi adqurido por subscrição pública e doada pelo povo a Seabra. Depois ele doaria essa casa às suas irmãs[76].

“Morto Seabra… Viva Seabra”[77].

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[1] Heitor Moniz, O Centenário de Seabra, Jornal do Comércio, 04/08/1955.

[2] Depoimento do Senador Nelson Carneiro ao Autor.

[3] Joel Presídio, Seabra e Simões, A Tarde, 17/01/1958.

[4] Revista Diretrizes, n. 94, p. 30.

[5] Revista Diretrizes, n. 94, p. 30.

[6] Estado de São Paulo, 06/12/1942, p. 8.

[7] João Neves da Fontoura, Memórias, vol. II, p. 221.

[8] Joel Presídio, ob. Cit., p. 35.

[9] A Noite, RJ, 08/12/1942, p. 3.

[10] Depoimento do Senador Nelson Carneiro ao Autor.

[11] Mário Guastini, Um campeão da República, Estado de São Paulo, 08/12/1942, p. 3.

[12] Carta de Octávio Mangabeira a Nelson Carneiro e discurso de Mangabeira na Câmara dos Deputados em 22/08/1955, Jornal do Comércio, 23/08/1955.

[13] Joel Presídio, Exemplos de Seabra, A Tarde, 24/08/1955.

[14] Depoimento do Senador Nelson Carneiro ao Autor, que não revelou o nome do político desconhecido.

[15] Joel Presídio, Estadista Ímpar da República, p. 8.

[16] Jornal do Comércio (Recife), 06/10/1939.

[17] Joel Presídio, Estadista Ímpar da República, p. 8.

[18] José Adalberto Ribeiro, Agamenon Magalhães, Uma estrela na testa e um mandacaru no coração, p. 26.

[19] A Tarde, 25/11/1939, p. 3.

[20] Relatório da Diretoria da Associação dos Empregados no Comércio na Bahia, Imprensa Oficial, 1949, Arquivo de Aloysio de Carvalho Filho.

[21] Revista Diretrizes, n. 94, p. 30.

[22] Revista Diretrizes, n. 94, p. 4.

[23] O Imparcial, 12/12/1942.

[24] Revista Diretrizes, n. 135, 28/01/1943, p. 6.

[25] Revista Diretrizes, 27/08/1942, p. 3.

[26] Revista Diretrizes, 01/10/1942, p. 6.

[27] Jayme Junqueira Aires, Seabra, Líder Autonomista, A Tarde, 03/09/1955.

[28] Afonso Arinos de Melo Franco, Rodrigues Alves, p. 233.

[29] A Revista Seiva é considerada a primeira revista editada pelo Partido Comunista do Brasil (PCB). À época, ela era dirigida pelos irmãos João e Wilson da Costa Falcão.

[30] Revista Seiva, “Fala-nos uma voz conhecida”, n. 14, p. 7.

[31] A Tarde, 04/12/1942, p. 3.

[32] A Tarde, 25/22/194, p. 3.

[33] Joel Presídio, ob. cit., p. 38.

[34] O Imparcial, 10/12/1942.

[35] Gazeta da Manhã, RJ, 04/12/1942, p. 7.

[36] A Tarde, 05/12/1942, p. 3.

[37] A Tarde, 26/11/1942, p. 3.

[38] A Tarde, 25/11/1942, p. 3.

[39] A Tarde, 27/11/1942, p. 3.

[40] A Tarde, 07/12/1942, p. 1.

[41] Sobre a morte de Seabra e seu sepultamento, bem como as homenagens prestadas após o seu falecimento, ver jornais dos dias seguintes ao seu desaparecimento, especialmente os jornais A Tarde e O Imparcial, de Salvador, e Correio da Manhã do Rio de Janeiro.

[42] A Noite, RJ, 08/12/1942, p. 14.

[43] Decreto 11.017-A, de 05/12/1942, DOU de 08/12/1942, p. 17.817.

[44] Estado de São Paulo, 08/12/1942, p. 5.

[45] Correio da Manhã, 08/12/1942, p. 3.

[46] Estado de São Paulo, 10/12/1942, p. 2.

[47] Correio da Manhã, 11/12/1942, p. 3.

[48] A Manhã, RJ, 11/12/1942, p. 4.

[49] Correio da Manhã, 11/12/1942, p. 3.

[50] Estado de São Paulo, 10/12/1942, p. 2.

[51] Correio da Manhã, 11/12/1942, p. 3.

[52] Correio da Manhã, 11/12/1942, p. 3.

[53] A Noite, RJ, 11/12/1942, p. 1 e 3.

[54] A Noite, RJ, 11/12/1942, p. 3.

[55] A Noite, RJ, 11/12/1942, p. 3.

[56] A Noite, RJ, 11/12/1942, p. 3.

[57] A Manhã, RJ, 12/12/1942, p. 10.

[58] A Noite, RJ, 12/12/1942, p. 6.

[59] A Noite, RJ, 11/12/1942, p. 3.

[60] As exéquias de J. J. Seabra, In: http://www.fameb.ufba.br/historia_med/hist_med_art63.htm, acessado em 05/05/2012.

[61] A Tarde, 12/121942, p. 2.

[62] A Noite, RJ, 12/12/1942, p. 6.

[63] A Tarde, 12/12/1942, p. 2.

[64] A Noite, RJ, 12/12/1942, p. 6.

[65] A Tarde, 12/121942, p. 2.

[66] Revista Diretrizes, 17/12/1942, p. 5.

[67] A Noite, RJ, 14/12/1942, p. 8.

[68] A Noite, RJ, 12/12/1942, p. 6.

[69] A Noite, RJ, 12/12/1942, p. 6.

[70] A Tarde, 12/12/1942, p. 2.

[71] Correio Paulistano, 15/12/1942, p. 3.

[72] Nelson Sampaio, A Tarde, 12/12/1942.

[73] A Noite, RJ, 08/12/1942, p. 3.

[74] O Paiz, 18/09/1909.

[75] Joel Presídio, Pobreza e liberdade em 65 anos de vida pública.

[76] João Eurico Matta, Faz 150 anos a vida estelar de Seabra.

[77] Nestor Duarte, oração fúnebre no enterro de Seabra, Jornal do Comércio, 23/08/1942.

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